O texto “Os livros na Idade Média”, de Jacques Verger, fala sobre o acesso ao livro neste período histórico. O texto é dividido em duas partes, na primeira há uma contextualização histórica da questão, onde alguns aspectos como os altos custos do papel e das cópias, e a entrada restrita nas bibliotecas, as quais em sua maioria eram destinadas aos homens de saber, e não eram públicas, mostram a dificuldade nesse acesso. Na segunda parte, temos a invenção da tipografia, que apesar de ter proporcionado a passagem do livro manuscrito para o impresso, não alterou de maneira efetiva o acesso, o qual ainda se restringia aos meios aristocráticos.
quinta-feira, 29 de abril de 2010
terça-feira, 20 de abril de 2010
Minhas procuras e meus encontros
Meu coração bate acelerado. Meu coração não bate, engata a primeira e vai, no compasso da pressa do sinal vermelho. Tenho pensado sobre meu processo de escrita fervorosamente, até porque não consigo pensar em nada de outra maneira, como num caso de vida ou morte. Talvez tenha lido todos os depoimentos do livro "Como escreve?", tentando encontrar em algum algo que me desse calma, que me deixasse, por outras bocas, me dizer. Mas nada me satisfez, nada me acalmou. Percebi que busco muito mais que informação no que leio, em tudo o que leio. Eu busco paz. Quando leio, perco minha própria voz. E se deixar dizer nas entrelinhas alheias, talvez seja pedir muito para quem me ouve. Como se eu não coubesse mais em mim, e tentasse encontrar meus pedaços perdidos por aí. Como se eu estivesse tão vazia, que quisesse evaporar de vez.
domingo, 11 de abril de 2010
A repetição necessária.
Demoro para me desapegar das coisas. Devo ter, por baixo uns 100 livros no meu quarto, o que é um tremendo problema, a final, o espaço é pequeno e a sensação que se tem ao entrar nele é de ser engolido pelas prateleiras, e traças, claro. Eu sempre tento arrumá-los, mas não consigo. Ás vezes os troco de lugar, os ponho no armário do corrredor, quero ser mais organizada e dar espaço aos novos. Mas aí é que minha angústia se instaura. E se eu quiser relê-los? Muitos diriam, é só procurá-los onde guardou. O problema é que se eles não ficam à minha vista, acabo por esquecê-los. E eu não quero. A releitura para mim é o que há de mais prazeroso e inspirador. Eu só escrevo porque releio, quero cravar em mim todos os espasmo provocados, ainda que eu saiba ser esta, tarefa impossível. O texto de Susan Sontag, "Mergulho num lago gelado", que fala, entre outras coisas, sobre o processo de escrita de um romance, abriu meus olhos para um ponto que nunca havia vislumbrado: o prazer de ler o que se escreve. Como ações indissociáveis, a leitura e a escrita são dependentes entre si. Escrever para ler, ler para escrever. E reler o que se escreve, como numa tentativa de se firmar na concretude inegável da palavra escrita. Escrever é se expor, ler a si mesmo, é se confirmar diante de si e do mundo. Os livros que releio são as confirmações de outros mundos dos quais quero me apropriar. Escrevo para transformar, leio para ter certeza. Quando ficou doente, Susan precisava ver sua disposição esparramada numa folha de papel. Ouvir não lhe bastaria, ouvir do outro o que se é, é não ouvir. É preciso ver, com todos os olhos que existem em si, se confirmar para poder ressoar para o mundo.
Para quem quiser on line, o texto está aqui: http://antoniozai.blogspot.com/2008/07/mergulho-num-lago-gelado-por-susan.html
Para quem quiser on line, o texto está aqui: http://antoniozai.blogspot.com/2008/07/mergulho-num-lago-gelado-por-susan.html
domingo, 28 de março de 2010
Meu processo de escrita.
Estou sentada há dez mintos na frente do computador, tenho algumas idéias e muitos receios. Estou um pouco cansada de não me focar no que realmente é para escrever aqui neste blog, por isso vou pelo básico: como se escreve? Como eu escrevo? Um cantinho um violão, esse amor, uma canção. Eu escrevo pra fazer feliz a quem me ama, como diria meu grande mestre Tom. Para escrever é preciso achar a música certa, o tom exato. O sibilar precisa sair do corpo, às vezes como suor, às vezes em forma de lágrima. Isso talvez seja o que muitos chamam de inspiração, mas para mim é só saber escutar o zunido que a vida provoca. Saber escrever, antes de tudo, é saber olhar a vida, respirá-la, inspirá-la. Ainda mais, é saber se olhar, se respirar, se inspirar. O sertão é dentro da gente, eu já me apropriei. Escrever é copiar, antropofazijar, deixar que as palavras ganhem novos significantes e significados. Se estender para além do corpo, minhas extremidades de nanquim. Eu saio borrando tudo por aí. Quero ter o mundo nas mãos, por isso escrevo. Quero criar meu próprio mundo, me travestir de quem eu sou, deixar escapar o que sinto. Tenho o poder de transformar meus medos, construir minhas próprias verdades. Me deixo ser o que não sou, para assim chegar a ser. Escrevo para ser palpável.
quarta-feira, 24 de março de 2010
Uma questão de gosto.
Depois de ler o texto "Filosofia da Composição", continuei sem mudar minha opinião. Já conhecia o poema, o autor e, inclusive, este texto, talvez por isso não tenham havido grandes mudanças no meu espírito. Talvez porque não me tenha sido uma surpresa saber como Poe compunha, talvez por não achar que saber sobre a composição deva ser relevante para a leitura do poema. Tenho comigo que em se tratando de um texto escrito, o que você quis dizer pouco importa, o importante é o que você disse. Senão, fica quase como explicar uma piada. Mas na verdade talvez isso seja pura bobagem, agora estou em lembrando de tantos outros relatos dos quais gostei muito e tiveram significativa importância na minha vida literária. Esse texto nunca teve, sua forma e seu conteúdo não me agradam, talvez seja birra, talvez seja maior que isso, seja apenas uma questão de gosto.O que quero dizer aqui, é que o meu gostar, ou nesse caso, o não gostar, não quer dizer em absoluto que eu considere o poema ruim, ou ainda que ele seja ruim de fato. Só quer dizer que não agradou meu paladar literário. Lembro-me de quando estudei a literatura portuguesa do século XIX, e depois de um semestre inteiro de Antonio Nobre, apesar de aprender a apreciá-lo, tive um sincero lapso: eu não gosto. Acho muito bonito quando adquirimos autonomia para entender nossos gostos. Até então sempre acreditei que não gostar era sinônimo de não entender, a final eu parecia só gostar daquilo que entendia. Eu precisei de anos de estudo para descobrir que eu posso me erguer e sem medo algum, expor meu gosto, meu agrado. Não gostar é a melhor maneira descobrir-se.
quinta-feira, 18 de março de 2010
Dez minutos de tortura.
Quando olhei o texto pensei, não gosto de Poe, muito menos do Corvo. A única lembrança boa a qual o poema me remete é um trecho de um livro da Fernanda Young, onde ela diz que absolutamente tudo que é feito em arte pode ser associado ao poema. Reluto, não quero ler. Não gosto de Poe, não gosto do Corvo. Porque não me dão algo que eu goste? Eu gosto de tanta gente, mas Poe..não. Meu pai adora Poe, me deu toda a coleção, eu nunca encostei, eu não gosto. Tá, eu sei, eu não estou aqui pra não gostar. Vou ler, tentar. Olho um pouquinho mais pra baixo, Fernando Pessoa. Não sabia que a tradução era dele, aliás, porque usar uma tradução dele e um texto do Poe? Pessoa seria muito mais agradável.
A primeira frase "quando eu lia, lento e triste", não eu não leio nem lenta nem triste, eu estou com gripe, não se deve ler poesia com gripe. Mas tudo bem, eu sou obrigada a continuar. A primeira estrofe nada me disse, e tenho a sensação de que hoje precisará de muito para que algo me toque, mas preciso continuar. Aliás, eu não consigo ler nada por obrigação, tudo fica tão desprazeroso (prazer seria ler Guimarães e suas "opiniães"). Logo depois eu vejo "Dezembro", meses não tem maiúsculas. Ou têm? Até as normas que eu tanto desprezo me desviam do poema. As rimas em "ais" que percebo ser constantes em todo o poema me irritam levemente, a coisa está se tornando cada vez mais desagradável.
Na terceira estrofe eu lembro de Pessoa, "cada reposteiro roxo", não sei porque me remete à "todas as palavras esdrúxulas, como sentimentos esdrúxulos, são naturalmente ridículos". Não quero nem pensar. O último verso se refere aos umbrais, umbrais, umbrais. Antonio Nobre ou Camilo Pessanha? Acho que Nobre, me lembro como detestei ler Nobre de início e, como apesar de sentir um certo apreço por ele hoje, ainda tenho certa dúvida sobre o meu gostar. Começo a fazer todas associações possíveis, quero me ver longe do poema, qualquer motivo é estrada para que eu fuja dali, ou daqui, não sei mais. Estou seriamente irritada, e pensar em como eu me sinto e no que eu estou pensando enquanto eu leio me deixa ainda mais nervosa. Além do texto, praticamente tudo me atrapalha. Até o barulho das teclas. O ar condicionado. A voz da professora falando coisas sobre um blog novo ou coisa assim. Estou entrando em parafuso. Vou tentar mais uma vez. Não, já li uma grande parte, e mesmo tendo plena consciência de que eu não li absolutamente nada de verdade, eu não vou voltar.
Minha cabeça dói, e dou risada quando chego "nem voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento, perdido, murmurei lento...Amanhã também te vais...Nunca mais". É te vais, nunca mais. Não gosto desse poema.Começo a perceber que tenho uma séria trava com coisas que eu não gosto, e o texto não termina. Poesia não tem graça se você não gosta dela, aliás não tem graça, nem sal, nem nada. Perdi todo o resto de vontade de ler a última página. Estou pensando há quase um minuto se eu leio ou não. Passo o olho rapidamente, todas as estrofes terminam com “ais”, como eu já tinha suspeito desde o princípio. Caio na risada, Alan Poe me remetendo ao grande Chapolin.
Continuo a ler com a calma que ainda me resta, e realmente percebo que qualquer coisa pode se referir ao Corvo. Aliás, eu estou me lembrando que eu mesma já usei o Corvo par parecer mais inteligente. As coisas começam a fazer algum sentido, mas não muito. As estrofes passam mais rapidamente pelos meus olhos e chego ao fim. Não fiz uma boa leitura, não consegui me concentrar. Poderia usar a desculpa de que se fosse Pessoa seria melhor, mas não vou usá-la. Continuo pensando, não gosto de Poe. Não gosto do Corvo.
sábado, 13 de março de 2010
Inflexão.
"Escrever existe por si mesmo? Não. É apenas o reflexo de alguma coisa que pergunta. Eu trabalho com o inesperado. Escrevo como escrevo sem saber como e porquê - é por fatalidade de voz. O meu timbre sou eu. Escrever é uma indagação. É assim?"
Clarice Lispector, Um sopro de vida (Pulsações)p.14.
Nunca gostei de escritas condicionadas, temas e fôrmas. Não gosto de nada que pode o subjetivismo, acredito que a escrita dependa de impulsos, internos e externos. Mas é preciso cuidado com aquilo que vem de fora, a cautela nunca é demais quando falamos em sugestão. Por isso eu acho dificílima a tarefa de ensinar a escrever. Ano passado fiz um curso que eu poderia chamar grotescamente de formação de poetas e, muito mais do que escrever, aprendi como se estimula a escrita. Digo estimula, porque supõe-se que escrever, você já aprendeu aos seis anos. Mas continuemos, primeiro é preciso conteúdo. Não adianta se bater na mesma tecla a todo momento, e caso seja essa a intenção, é preciso ser perspicaz, tirar a monotonia de uma reflexão já condicionada e aprofundar os ângulos que formem seu tema. O professor, ou o estimulador de futuros escritores, como prefiro dizer, deve ter em mente que é preciso arrancar aquilo que há de mais pulsante em cada um, e isso deve ser um violento estupro. Para se refletir sobre o que se escreve precisa-se colocar o estudante em posição desconfortável, mais que isso, precisa-se exigir dele o máximo de esforço, físico e mental durante o exercício da escrita. Isso porque escrever é doloroso, é imprescindível a destreza de pensamentos e o sincronismo entre dedos e mente. Por isso, o tutor deve acompanhar o processo, e até mesmo invadi-lo quando necessário. Colocar o sujeito em xeque. Atar suas mãos e dizer escreva. Não bastam discussões não empíricas, atingir a superficialidade do que se pode ser é desprezível. Mas para isso é preciso de um olhar além, de uma sensibilidade a mais, de bases sólidas, para que não haja a destruição total. Deve-se criar um ambiente de exercício da liberdade, para sentir-se na prisão em que ela nos coloca.
quarta-feira, 10 de março de 2010
Invencionices
Eu não sou filha de escritores, mas meus pais não liam, inventavam as histórias que eu ouvia. Até hoje eu não sei de onde saiu tanta criatividade, talvez eles concebessem em mim um lugar para se refazer das fantasias que quiseram viver quando crianças. Sorte a minha. Religiosamente, antes de dormir, e de acordar, foram raras as vezes em que não acordei com uma história já em sua metade. Talvez por isso eu adore começar os livros pela metade, a final, ler livros é como conhecer uma pessoa, impossível ser do começo. Livros não são obras de arte, são os degraus em que calço a minha existência.São pontes para que eu acesso o inimaginável em mim.
segunda-feira, 1 de março de 2010
As profundezas de Carpinejar.
Depois dos clássicos e de Caio Fernando Abreu, Fabrício Carpinejar é um dos meus preferidos. Não pela sua qualidade, muito menos pela quantidade. Fabro é tão querido pela sua delicadeza, pela sensibilidade pontual. Ele lê o mundo com outras lentes, vê outras cores, e codifica sons quase imperceptíveis numa rua cruzada constantemente por gente. Seu blog - ou seus blogs, já que mudaram tantas vezes de endereço -, é um apanhado de percepções sensíveis da realidade. Retratos cotidianos, fotos em preto e branco. O amor é seu tema constante, ele amplia e disseca todos os seus significados, sentimentos e sentidos. Cada texto seu é uma aula sobre o escrever poético, sobre como a poesia está em todos os lugares, sobre como escrever poesia é ler a poesia das coisas. Pra quem gosta de escrever, ou quer gostar. Mas principalmente pra quem gosta de ler.
Pra sentir um gostinho:
Escrever não é desistir de falar, é empurrar o silêncio para fora.
Pra sentir um gostão:
http://carpinejar.blogspot.com/
Pra sentir um gostinho:
Escrever não é desistir de falar, é empurrar o silêncio para fora.
Pra sentir um gostão:
http://carpinejar.blogspot.com/
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Escolhas
Talvez tenha faltado uma apresentação aqui nesse blog, mas é que detesto apresentações. Tenho a sensação de que é a maneira mais fácil de se mostrar quem não se é. Também detesto inícios, tanto que começo todos os livros pela metade, por isso comecei esse blog como se ele já estivesse em andamento. Começos me dão a sensação de que tudo é novo e frágil, mas sei que é preciso que desaprendamos os limites, e tenho a ligeira impressão de que é para isso que estamos aqui.E como se "isso" fosse pouco, as escolhas já foram colocadas à nossa disposição: Como escolher um livro? Como não escolher os livros já lidos e tão queridos? Como não resistir à tentação de reler, e reviver histórias tão bem contadas e onde já se tem a certeza do prazer? Porque aquilo que lemos já somos nós. Mas é preciso que sejamos além.Talvez porque as grandes aventuras dependam da coragem para adentrar no desconhecido. Então estou aqui, resistindo à releitura, deixando para trás tudo que concebo como meu, buscando em um novo livro aquilo que há de velho em mim. E, citando Doc Comparato, no prefácio de "Me alugo para Sonhar", de Gabriel García Márquez: "um dos efeitos mais perturbadores do ato de criar é aquele que nos dá a sensação de que não estamos descobrindo nada de novo, somente resgatando algo esquecido."
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
Preciosa, impossível não sentir.
AOS ESFARRAPADOS DO MUNDO
E AOS QUE NELES SE
DESCOBREM E, ASSIM
DESCOBRINDO-SE, COM ELES
SOFREM, MAS, SOBRETUDO,
COM ELES LUTAM.
Paulo Freire.
Falar de "Preciosa" é difícil, sentir "Preciosa" é pior ainda. Uma negra, gorda, analfabeta, abusada, maltratada, com dois filhos e nenhuma perspectiva. O amontoado de clichês nos fazem obter a altura necessária para saltar o muro do senso comum. O mergulho na realidade da triste Clareece, é um mergulho para dentro de nossos próprios monstros. Muito mais complexo do que a tela plana do cinema permite, o filme escarra toda a violência à qual Clareece está sujeita. Não há saídas, não existem becos em que possa se esconder. A única fuga possível é encontrar-se. É perceber-se dentro de um mundo em que não há espaço para ser ou sentir, descobrir-se numa escola alternativa para alunos problemáticos no Harlem. Em busca de tudo e qualquer coisa, a presença da professora Rain se dá como um suspiro, aquela primeira bolha de ar que sai da garganta depois de muito tempo sem respirar. A cada palavra ensinada, a cada letra aprendida, a consciência de que as grandes jornadas começam com passos curtos. Aos poucos, Clareece aprende a determinar os limites para sua própria dor. O sofrimento de quem sabe e vê, de quem não é mais um cachorro cego vagando pelas ruas, confundindo chutes com carinho. A professora Rain foi um ponto de luz para Clareece, Clareece não foi uma escolha para a professora Rain."Preciosa" é um filme sobre a esperança dos que não podem esperar, sobre como mãos se apoiam e se levantam, sobre a dificuldade de se parir o amor.

