quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Escolhas
Talvez tenha faltado uma apresentação aqui nesse blog, mas é que detesto apresentações. Tenho a sensação de que é a maneira mais fácil de se mostrar quem não se é. Também detesto inícios, tanto que começo todos os livros pela metade, por isso comecei esse blog como se ele já estivesse em andamento. Começos me dão a sensação de que tudo é novo e frágil, mas sei que é preciso que desaprendamos os limites, e tenho a ligeira impressão de que é para isso que estamos aqui.E como se "isso" fosse pouco, as escolhas já foram colocadas à nossa disposição: Como escolher um livro? Como não escolher os livros já lidos e tão queridos? Como não resistir à tentação de reler, e reviver histórias tão bem contadas e onde já se tem a certeza do prazer? Porque aquilo que lemos já somos nós. Mas é preciso que sejamos além.Talvez porque as grandes aventuras dependam da coragem para adentrar no desconhecido. Então estou aqui, resistindo à releitura, deixando para trás tudo que concebo como meu, buscando em um novo livro aquilo que há de velho em mim. E, citando Doc Comparato, no prefácio de "Me alugo para Sonhar", de Gabriel García Márquez: "um dos efeitos mais perturbadores do ato de criar é aquele que nos dá a sensação de que não estamos descobrindo nada de novo, somente resgatando algo esquecido."
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
Preciosa, impossível não sentir.
AOS ESFARRAPADOS DO MUNDO
E AOS QUE NELES SE
DESCOBREM E, ASSIM
DESCOBRINDO-SE, COM ELES
SOFREM, MAS, SOBRETUDO,
COM ELES LUTAM.
Paulo Freire.
Falar de "Preciosa" é difícil, sentir "Preciosa" é pior ainda. Uma negra, gorda, analfabeta, abusada, maltratada, com dois filhos e nenhuma perspectiva. O amontoado de clichês nos fazem obter a altura necessária para saltar o muro do senso comum. O mergulho na realidade da triste Clareece, é um mergulho para dentro de nossos próprios monstros. Muito mais complexo do que a tela plana do cinema permite, o filme escarra toda a violência à qual Clareece está sujeita. Não há saídas, não existem becos em que possa se esconder. A única fuga possível é encontrar-se. É perceber-se dentro de um mundo em que não há espaço para ser ou sentir, descobrir-se numa escola alternativa para alunos problemáticos no Harlem. Em busca de tudo e qualquer coisa, a presença da professora Rain se dá como um suspiro, aquela primeira bolha de ar que sai da garganta depois de muito tempo sem respirar. A cada palavra ensinada, a cada letra aprendida, a consciência de que as grandes jornadas começam com passos curtos. Aos poucos, Clareece aprende a determinar os limites para sua própria dor. O sofrimento de quem sabe e vê, de quem não é mais um cachorro cego vagando pelas ruas, confundindo chutes com carinho. A professora Rain foi um ponto de luz para Clareece, Clareece não foi uma escolha para a professora Rain."Preciosa" é um filme sobre a esperança dos que não podem esperar, sobre como mãos se apoiam e se levantam, sobre a dificuldade de se parir o amor.

