sábado, 13 de março de 2010

Inflexão.

"Escrever existe por si mesmo? Não. É apenas o reflexo de alguma coisa que pergunta. Eu trabalho com o inesperado. Escrevo como escrevo sem saber como e porquê - é por fatalidade de voz. O meu timbre sou eu. Escrever é uma indagação. É assim?"
Clarice Lispector, Um sopro de vida (Pulsações)p.14.

Nunca gostei de escritas condicionadas, temas e fôrmas. Não gosto de nada que pode o subjetivismo, acredito que a escrita dependa de impulsos, internos e externos. Mas é preciso cuidado com aquilo que vem de fora, a cautela nunca é demais quando falamos em sugestão. Por isso eu acho dificílima a tarefa de ensinar a escrever. Ano passado fiz um curso que eu poderia chamar grotescamente de formação de poetas e, muito mais do que escrever, aprendi como se estimula a escrita. Digo estimula, porque supõe-se que escrever, você já aprendeu aos seis anos. Mas continuemos, primeiro é preciso conteúdo. Não adianta se bater na mesma tecla a todo momento, e caso seja essa a intenção, é preciso ser perspicaz, tirar a monotonia de uma reflexão já condicionada  e aprofundar os ângulos que formem seu tema. O professor, ou o estimulador de futuros escritores, como prefiro dizer, deve ter em mente que é preciso arrancar aquilo que há de mais pulsante em cada um, e isso deve ser um violento estupro. Para se refletir sobre o que se escreve precisa-se colocar o estudante em posição desconfortável, mais que isso, precisa-se exigir dele  o máximo de esforço, físico e mental durante o exercício da escrita. Isso porque escrever é doloroso, é imprescindível a destreza de pensamentos e o sincronismo entre dedos e mente. Por isso, o tutor deve acompanhar o processo, e até mesmo invadi-lo quando necessário. Colocar o sujeito em xeque. Atar suas mãos e dizer escreva. Não bastam discussões não empíricas, atingir a superficialidade do que se pode ser é desprezível. Mas para isso é preciso de um olhar além, de uma sensibilidade a mais, de bases sólidas, para que não haja a destruição total. Deve-se criar um ambiente de exercício da liberdade, para sentir-se na prisão em que ela nos coloca.


2 comentários:

Márcia Fortunato disse...

Laura, a escrita materializa o pensamento (ou o conteúdo que queremos abordar em um texto). Essa materialidade da escrita se configura sob formas que funcionam como interfaces para o leitor e que se relacionam às práticas de leitura. Não basta conhecer o sistema de escrita para escrever textos, por isso a escrita que aprendemos aos seis anos ou mais não é suficiente para produzir textos. Temos que aprender mais sobre as formas de composição dos textos para atingir nossos propósitos. A questão vai além do conhecimento do conteúdo, embora esse realmente seja essencial, como você bem disse. Você tem uma excelente habilidade para produzir textos reflexivos, por exemplo. Que conhecimentos você possui que a habilitam a produzir boas reflexões? Vamos pensar mais a respeito?
Beijo, Márcia.

Flavia disse...

Laura,
Sinto que a liberdade para escrever não só nos aprisiona, mas também nos deixa só.
Beijos
Flavia