quinta-feira, 18 de março de 2010

Dez minutos de tortura.


Quando olhei o texto pensei, não gosto de Poe, muito menos do Corvo. A única lembrança boa a qual o poema me remete é um trecho de um livro da Fernanda Young, onde ela diz que absolutamente tudo que é feito em arte pode ser associado ao poema. Reluto, não quero ler. Não gosto de Poe, não gosto do Corvo. Porque não me dão algo que eu goste? Eu gosto de tanta gente, mas Poe..não. Meu pai adora Poe, me deu toda a coleção, eu nunca encostei, eu não gosto. Tá, eu sei, eu não estou aqui pra não gostar. Vou ler, tentar. Olho um pouquinho mais pra baixo, Fernando Pessoa. Não sabia que a tradução era dele, aliás, porque usar uma tradução dele e um texto do Poe? Pessoa seria muito mais agradável.
A primeira frase "quando eu lia, lento e triste", não eu não leio nem lenta nem triste, eu estou com gripe, não se deve ler poesia com gripe. Mas tudo bem, eu sou obrigada a continuar. A primeira estrofe nada me disse, e tenho a sensação de que hoje precisará de muito para que algo me toque, mas preciso continuar. Aliás, eu não consigo ler nada por obrigação, tudo fica tão desprazeroso (prazer seria ler Guimarães e suas "opiniães"). Logo depois eu vejo "Dezembro", meses não tem maiúsculas. Ou têm? Até as normas que eu tanto desprezo me desviam do poema. As rimas em "ais" que percebo ser constantes em todo o poema me irritam levemente, a coisa está se tornando cada vez mais desagradável.
Na terceira estrofe eu lembro de Pessoa, "cada reposteiro roxo", não sei porque me remete à "todas as palavras esdrúxulas, como sentimentos esdrúxulos, são naturalmente ridículos". Não quero nem pensar. O último verso se refere aos umbrais, umbrais, umbrais. Antonio Nobre ou Camilo Pessanha? Acho que Nobre, me lembro como detestei ler Nobre de início e, como apesar de sentir um certo apreço por ele hoje, ainda tenho certa dúvida sobre o meu gostar. Começo a fazer todas associações possíveis, quero me ver longe do poema, qualquer motivo é estrada para que eu fuja dali, ou daqui, não sei mais. Estou seriamente irritada, e pensar em como eu me sinto e no que eu estou pensando enquanto eu leio me deixa ainda mais nervosa. Além do texto, praticamente tudo me atrapalha. Até o barulho das teclas. O ar condicionado. A voz da professora falando coisas sobre um blog novo ou coisa assim. Estou entrando em parafuso. Vou tentar mais uma vez. Não, já li uma grande parte, e mesmo tendo plena consciência de que eu não li absolutamente nada de verdade, eu não vou voltar.
Minha cabeça dói, e dou risada quando chego "nem voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento, perdido, murmurei lento...Amanhã também te vais...Nunca mais". É te vais, nunca mais. Não gosto desse poema.Começo a perceber que tenho uma séria trava com coisas que eu não gosto, e o texto não termina. Poesia não tem graça se você não gosta dela, aliás não tem graça, nem sal, nem nada. Perdi todo o resto de vontade de ler a última página. Estou pensando há quase um minuto se eu leio ou não. Passo o olho rapidamente, todas as estrofes terminam com “ais”, como eu já tinha suspeito desde o princípio. Caio na risada, Alan Poe me remetendo ao grande Chapolin.
Continuo a ler com a calma que ainda me resta, e realmente percebo que qualquer coisa pode se referir ao Corvo. Aliás, eu estou me lembrando que eu mesma já usei o Corvo par parecer mais inteligente. As coisas começam a fazer algum sentido, mas não muito. As estrofes passam mais rapidamente pelos meus olhos e chego ao fim. Não fiz uma boa leitura, não consegui me concentrar. Poderia usar a desculpa de que se fosse Pessoa seria melhor, mas não vou usá-la. Continuo pensando, não gosto de Poe. Não gosto do Corvo.


2 comentários:

Ludmila disse...

Legal seu texto, gostoso como sempre...mesmo quando para você estava sendo uma tortura.
Que livro da Fernanda Young? eu adorava ela, mas depois nunca mais li nada. Talvez ainda adore, só preciso me atualizar. Acho que os meses do ano só são com letra minúscula na língua portuguesa, ou se bobear somente no Brasil, bom não sei, só sei que em inglês e francês são sempre maiúsculas.
beijos

agnes! disse...

Concordo, nao se deve ler poemas com gripe :D